Não há mal que perdure nem bem que nunca se acabe.
Eu acredito nesta frase. E em muitas outras que fazem referência á cura da dor pelo tempo, muitas vezes citado como "remédio milagroso". Bom, não vou falar aqui sobre dor psicológica e emocional, vou abordar a propriamente dita mesmo. Porque falar sobre outras dores que não a física é complicado, já que não há como sofrer as dores invisíveis do outro sem acabar tentando julgar a melhor forma de curá-la de acordo com NOSSA concepção e ninguém além do "sofredor" conhece a extensão e intensidade de seu sofrimento. Falemos então da face não abstrata da dor...
Desde nova - não adianta porque não vou citar minha idade hoje - , pensava, desejava e ansiava fazer uma tatuagem baseada numa história chinesa que me impressionou a ponto de nunca conseguir esquecê-la. Sempre fui amante da mitologia e em minha época escolar, como sabem, era NERD e passava minhas tardes de lazer lendo as magníficas narrativas sobre deuses e heróis de todas as nacionalidades existentes possíveis. A chinesa e seus dragões guerreiros sempre tiveram maior apelo para mim por estarem sempre acompanhadas de uma "moral da história" e eu acredito que todo acontecimento tem o propósito de nos ensinar algo, mesmo que por analogia, nuance que os orientais em geral utilizam como ninguém que já tenha lido até hoje.
Figura simbólica escolhida, significado definido em meu coraçào e cor apropriada para traduzir minha filosofia, deparei-me com dificuldades intransponíveis para a época...
Primeiramente, eu era menor de idade e não podia me tatuar sem autorização de mami e papi, e sequer cogitar uma conversa sobre o assunto com eles estava fora de questão... Era caro, não tinha recurso NENHUM e muito menos esclarecimento sobre o melhor atista para este desenho, numa década em que muitas doenças terríveis foram atribuídas á prática de pinturas na pele com agulhas, colocação de piercings e afins, transformando os profissionais do ramo em desvirtuadores da moral e bons costumes e o som pesado do Rock em melodia do inferno. (Com isso, você deve estar fazendo suas contas para saber minha idade, não é?). Por essas e outras que não vou citar, meu sonho foi encaixotado, lacrado e trancado no armário de "Num futuro distante talvez, quem sabe..." dentro de meus arquivos íntimos.
Alguns - talvez muitos, você nunca vai saber - anos depois, mais velha, madura e profissionalmente realizada, deparei-me com minha habitual faxina interna, aquela que sempre cito em meus posts e eis que esbarrei na caixa empoeirada e esquecida num canto relativamente escuro e mal conservado do meu íntimo. Abri cuidadosamente aquele desejo e ele literalmente me consumiu. Antes que eu perdesse a coragem e ouvisse a prudência que só a maturidade nos traz, o coloquei embaixo do braço e concentrei-me em achar o artista certo, na hora certa a realizar meu desejo secreto.
Foram as quatro horas mais dolorosas da minha vida e os músculos de minhas costas se retesam sempre que esta lembrança invade meus pensamentos, como o prenúncio de mais e mais dor, pois terei mais duas sessões de tortura antes que eu finalmente possa dar meu sonho juvenil por realizado. Não, eu nào sou louca e muito menos masoquista, queridos. Minha mãe reclamou muito, mas está passando a pomadinha cicatrizante e já até reconhece meu dragão vermelho (ainda incolor) como parte integrante de meu corpo. Se a dor passou? Claro, no dia seguinte latejou menos.
MORAL DA HISTÓRIA: Apesar da dor que eu senti, faria tudo novamente, porque descobri que o medo da dor é pior que a própria dor em si. Doeu muito, mas meu desejo de ter o símbolo das batalhas travadas ao longo da minha vida, foram o bálsamo que eu precisava para seguir adiante pela dor e principalmente através dela.
Nenhum comentário:
Postar um comentário